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«OS COMPLEXOS CAMINHOS DA EDUCAÇÃO»

Data adicionada : January 26, 2017 03:00:05 PM
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26 janeiro 2017


O ano lectivo abriu em 23 de Janeiro p. p., em Moçambique.

Segui, com interesse, as palavras do Presidente Nyusi que, sob o lema «por uma educação de qualidade rumo ao desenvolvimento humano», defendeu uma educação de qualidade para o futuro do País. Para o conseguir, apela ao "envolvimento da sociedade no geral incluindo pais, encarregados de educação, professores, alunos e direcções das instituições competentes no processo de ensino e aprendizagem dos alunos, desde o nível primário ao superior." Enumera, depois, algumas valências que devem caracterizar o professor e o aluno. O modelo de professor é, no mínimo, curioso: "Que ele seja pai, mãe, educador, amigo do aluno." Faltou, talvez, acrescentar que seja Deus ou, no mínimo, feiticeiro, pois só alguém com poderes sobrenaturais poderá levar a cabo tarefa de tal envergadura como é «formar o Homem do amanhã autónomo», etc., etc.

Bem, as palavras valem o que valem, embora estejamos habituados a que a grandes palavras correspondem, normalmente, actos falhados. Ora, a Educação, em Moçambique, não precisa de grandes palavras e nobres intenções, mas de actos concretos, realizáveis e realizados.

Um governo enfrenta, na Educação, a tarefa mais complexa da sua legislatura, pois, se a economia, a paz, a cultura, os valores éticos, a cidadania, a família, e os mil e um problemas que um governante tem de resolver, no dia-a-dia, exigem uma atenção intensiva, a verdade é que tudo fracassará se a Educação falhar. Os alicerces de um país a sério assentam na Educação.

Ao Governo pertence criar as condições para que o professor, o aluno, os pais, os encarregados de educação, os directores e todos os outros actores estejam à altura de levar a cabo a gigantesca tarefa de preparar um Homem como cidadão interessado e interveniente. Nada acontece só porque se quer que aconteça. Há que pensar num plano de actividades, há que pesquisar, que enriquecê-lo, que formar, que equipar as escolas, que decidir sobre os conteúdos programáticos, que definir os valores a preservar, que apostar numa cultura do diálogo, da tolerância, do respeito pelo outro.

Para não me alongar mais, lembrarei apenas duas ou três matérias que o país tem de resolver para que se construa um Homem-Cidadão para o futuro.

Uma criança que nasce numa família sem pão fica marcada como alguém destinado ao fracasso escolar,pois a fome afectará o desenvolvimento do seu cérebro a partir dos primeiros meses de modo quase irreversível, roubando-lhe capacidades que nunca mais se desenvolverão. Como ter alunos de sucesso, se não se criarem condições para resolver os problemas da miséria, da guerra, do álcool, de todo um ambiente de intranquilidade que é um inimigo diabólico de uma Educação de qualidade?

Um outro problema é o da formação dos professores. Podem ter uma vontade enorme de acertar, mas, por aquilo que conheço da formação, em Moçambique, ela é muito pobre, muito má, mesmo. Em quantas escolas de Moçambique se pratica, hoje, a pedagogia mais actual, a chamada "pedagogia invertida"? Quantos livros lê um aluno moçambicano por ano? Quantas línguas aprende? Em que laboratórios investiga? Que intercâmbio pratica com alunos de outras culturas, de outras religiões, de outras maneiras de estar na vida? Estas matérias são, hoje, mais importantes que ontem. Um país que continue a apostar numa educação em circuito fechado, sempre a mastigar os mesmos temas, as mesmas ideias, as mesmas barreiras, fechados ao mundo exterior, é um país condenado ao fracasso.

Para terminar, por agora, pois os temas a tratar são tantos que se torna difícil abarcá-los em tão poucas linhas, gostaríamos de saber como estão equipadas as escolas. Consegue-se trabalhar debaixo de uma mangueira, sem outros recursos que não seja uma pedra para que o aluno se sente (já o fiz e sei que é possível), mas, com certeza, que esse não será o ambiente propício a um ensino de qualidade. Mas, a escola moderna, não são apenas as paredes e o mobiliário. Devem ter-se em conta os computadores, os laboratórios, a Internet, livros de qualidade, bons planos de actividades, etc., mas, sobretudo, programas abertos, que não criem mentalidades de exclusão do outro, que não cultivem o ódio ao outro, começando por apagar dos manuais os textos de conteúdo racista ou de descriminação cultural, religiosa ou outra. Por vezes, tive a sensação de que o moçambicano é educado para pensar que só ele tem valores, respeita os antepassados, obedece ao Pai e à Mãe, não prevarica, não falha. Se, por acaso, tropeça, a culpa nunca é sua, é da influência da maldita herança colonial, ou da imitação dos modos de viver dos ocidentais. Ouvi mesmo, recentemente, da boca de um alto responsável pela educação, em Moçambique, que a responsabilidade da violência nas escolas não era mais que um problema de imitação do que se passa no Ocidente. Enfim, pasmemos.»

 
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