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A IMPORTÂNCIA INCONTORNÁVEL DA MULHER

Data adicionada : December 30, 2016 03:00:04 PM
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Categoria:
 

30 dezembro 2016




Horácio, vindo de Murrupula, contou casos de violência doméstica que conhecia e emocionaram a assembleia. Crianças abusadas, espancadas. Medo. Muita morte, muita fome, muita miséria, muita indiferença. Mas, a esperança nunca morre. A economia cresce, em Moçambique. A situação acabará por melhorar. Haverá mais educação, mais saúde, mais investimento. A mulher resiste. Teima. É forte. Mais que o homem. A luta endureceu-a. Deu-lhe resistências à dor, ao sofrimento físico. E moral. Nada a vence. Há mais empresárias, mais professoras, mais ministras, mais directoras. A professora Sara surpreendeu-me. Nunca a vira tão entusiasmada, tão interveniente. Como porta-voz de um dos grupos de trabalho, investigara, fizera bem o trabalho de casa. Meio milhão de mulheres morre anualmente antes, durante ou pouco tempo depois de dar à luz. Podiam ter sido salvas? Podiam. Muitas morreram de perdas de sangue, de tensão alta, de uma infecção mal tratada, de uma oclusão. Há falta de pessoal preparado, há muita influência de tradições, muita ignorância, muita necessidade de levar as meninas à escola, de ensiná-las, de ajudá-las, de dar-lhes oportunidades. Muito trabalho tem sido feito, bem sei. Mas, não chega. Temos de esforçar-nos muito mais. As meninas têm de estudar. Não podemos orgulhar-nos do nosso subdesenvolvimento. Não basta dizermos que somos diferentes. Que África tem as suas especificidades. O trabalho infantil existe, e não é bom. A maternidade precoce existe, e não é bom. Temos de querer mais. Somos diferentes. Tudo bem. Mas não podemos orgulhar-nos da nossa miséria. Demos as mãos e vamos à luta. Sejamos diferentes pela coragem, pela inteligência, pela solidariedade, pela capacidade de arrancarmos para uma sociedade mais justa com os nossos próprios meios. Fico triste sempre que estamos de mão estendida, à espera dos doadores. Ninguém dá nada sem esperar receber. Sejamos livres. Deus ajuda quem se ajuda! A sala quase veio abaixo, com o entusiasmo. Cheguei a recear as consequências de tanto calor. Mais parecia um comício político. As pessoas sentiram que havia espaço para se dizer o que se pensava, sem medos. Tive de começar a deitar água no incêndio. Precisávamos de nos focar mais objectivamente no problema que nos trouxera ali. Precisávamos de encontrar um plano para apresentarmos aos convidados que viriam ajudar-nos. Precisávamos de lhes fornecer pistas sobre o que debater. Patrícia, uma mãe solteira que aprendeu, no duro, a empurrar a vida para a frente, tornando-se numa respeitada comerciante, adiantou algumas linhas do que achava que deveríamos debater com os nossos convidados. Um dos temas que devemos discutir tem de ser encontrar pistas para se reduzir a mortalidade materna. Hoje, morre, no nosso país, uma mulher, por complicações na gravidez e no parto, a cada duas horas, onze mulheres por dia. Estas mulheres fazem falta ao país. Uma das metas do Milénio consiste em reduzir a mortalidade materna em três quartos. O nosso governo está atento e começou a tomar medidas. Mas, se nós, localmente, não descobrirmos soluções práticas, tudo vai ficar na mesma. Se queremos mudar as coisas, temos de trabalhar para que isso aconteça. Não podemos ficar sentados, à espera que os outros façam aquilo que nós queremos que aconteça. Deus ajuda quem se ajuda, terminou. Absalão voltou à carga. Em Moçambique, estamos a viver um fenómeno estranho. Aceitamos a miséria como uma fatalidade. Não aceitamos que os ocidentais venham ajudar-nos a combater os nossos males, mas queremos o seu dinheiro. Dizemos que os problemas são nossos e desculpamo-nos com as especificidades africanas para nos desculparmos e recusar ingerências. Aplaudimos os chineses porque dão sem condições. Não nos interrogamos sobre o que estará por debaixo desse desinteresse. Ninguém dá nada a ninguém. De forma encoberta ou descarada, há sempre um objectivo escondido por detrás de quem dá. Temos de olhar para o futuro. A miséria não tem cor nem fronteira. É igual em todo o mundo. Há metas a atingir. Foram definidas em sede internacional. Queremos atingi-las, ou não? Ter mais saúde, mais educação, mais justiça é possível. Não arranjemos desculpas. Lutemos para que isso aconteça. A mudança começa aqui e agora. É possível. 40 por cento das mulheres moçambicanas ficam grávidas antes dos 20 anos e o risco de morte entre as adolescentes grávidas é quatro vezes maior nelas do que nas mulheres com mais de 20 anos. Vamos deixar que isto continue a acontecer na nossa família, na nossa comunidade? Não podemos ter iniciativas junto das nossas filhas? Há recursos que não temos, sobretudo nós, que vivemos no campo, longe de tudo. Podemos aconselhar, vigiar, acompanhar mais de perto as crianças. Podemos pedir ajuda a quem sabe e pode. Não é vergonha. Aprender a amamentar, aprender a praticar mais higiene, aprender a evitar a gravidez, ensinar as raparigas a adiar a primeira relação sexual, são problemas que devem fazer parte da nossa discussão. Que venha alguém ajudar-nos a reflectir nestes assuntos. Podemos evitar muitas mortes, muitas tristezas, muita dor. Precisamos de muito dinheiro para conseguir isto? Vamos ficar parados, à espera de doadores ou do governo? Não rejeitamos nenhuma ajuda, mas, sobretudo, precisamos de uma nova atitude. Somos capazes. Vamos conseguir, se quisermos. A felicidade da nossa comunidade depende da nossa força. Não queremos ser ricos. Queremos ser felizes. Querer é poder. A pouco e pouco, fomos construindo uma agenda de trabalhos com uma certa lógica, o que iria permitir-nos convidar as pessoas certas para nos ajudarem a reflectir sobre um tema tão importante. A mulher é um pilar imprescindível do desenvolvimento. Tudo o que se fizer pela sua dignidade e bem-estar contribui para o engrandecimento do país.

 
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