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MEMÓRIA E IDENTIDADE

Data adicionada : October 22, 2016 04:00:05 PM
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22 outubro 2016


A memória e a procura da identidade acarretam problemas complexos para qualquer indivíduo. Há os que vão buscar aos arquivos do passado, os momentos trágicos, enquanto outros, mais optimistas, preferem reviver os episódios mais felizes Costumo dizer que, graças a Deus, a nossa memória tem tendência par recordar o bom e esquecer o mau, pois, caso contrário, a vida seria um inferno contínuo. Assim vamos domesticando os monstros e aprendendo a amadurecer. Ao fim e ao cabo, o passado já era e o futuro ainda não é. Será daqui a pouco, já, já. Verdade, verdadinha, só vivemos no presente. Como diz uma personagem de Patrick Modiano, Nobel da Literatura 2014, quando interrogada sobre como encarava o futuro: «O futuro...Uma palavra cuja sonoridade, hoje, Bosman julgava pungente e misteriosa. Mas, naquele tempo, nunca pensávamos no futuro. Ainda estávamos, sem nos apercebermos da nossa sorte, num eterno presente.» Quando li a primeira obra de Modiano, não gostei. Depois, fui relê-lo e passei a ser seu fã. Porque comecei a entendê-lo, porque me fala de problemas que sempre fui vivendo sem os transformar em dramas, já esquecido de que alguma vez os revivi como tal. Difícil caminhada esta de termos de viver com memória, de termos de procurar a nossa identidade, de termos de arrumar uma personalidade com um sentido de vida. A quase obrigação de encontrarmos a felicidade. Quantos milhões de palavras já exprimiram esta ideia da busca da felicidade, esta procura de resposta para uma eterna pergunta que nos impomos: «O que é a felicidade?» Continuo sem resposta.

Por vezes, somos tentados a invejar os que, diariamente, se sentam nas esplanadas a degustar uma cervejola, à mistura com graçolas e risadas. Entretanto, não deixaram de cumprir as suas tarefas rotineiras, nem esqueceram as suas responsabilidades. Não são fúteis, nem inúteis. São mundos complexos. Escondem, atrás daquela máscara de esplanada, mundos de sentimentos, de sonhos, de frustrações, de êxitos, de derrotas. Nenhum ser é o que parece. Nunca seremos capazes de o desvendar, nunca poderemos dizer que o conhecemos. Nenhuma pessoa é assim, naturalmente simples, como o sol que nasce ou a chuva que cai. Saudades do tempo em que, a um de Janeiro, nevava sempre. A um gesto do meu Pai, lá íamos, Serra acima, de arma apoiada no braço, à procura das marcas das patitas da raposa. E todos os anos, acrescentava um tapete fofinho ao soalho do meu quarto. Depois, a neve deixou de cair no primeiro dia de cada ano. As estações baralharam-se. Até a certeza de que um homem era um homem e uma mulher, mulher se esvaiu. Já nada é o que é. Acabaram-se as certezas. Que dor! Que complicação! Mas, nada nos impede de ser felizes ou, pelo menos, de lutarmos em busca da felicidade. Ilusão? De sonhos também se vive. Quantas vezes teremos de recomeçar? Quantos monstros teremos de matar? Quanta ansiedade? Quanta angústia? Mas, não será esse o sal da vida?

Schopenhauer falava de «compaixão», Cristo fala de amor. O filósofo acreditava no Homem. Cristo também. Recordemos, a terminar, algumas palavras de Schopenhaeur: «Ele ( o Homem) deve erguer-se acima da vida, deve compreender que os incidentes e os acontecimentos, as alegrias e as dores não atingem o seu melhor eu, o seu eu interior, e que tudo não passa de um jogo.» E, por falarmos em jogo, desçamos ao real, isto é, ao virtual, com um alerta para esses tontos que, com tanta facilidade, distribuem a sua identidade nas redes sociais e rapidamente encontram centenas ou milhares de «amigos». Amigos!? Virtuais, certamente.

 
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