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Comércio(s) em Portugal - entre a venda do que se compra e a compra do que se vende -

Data adicionada : September 28, 2016 01:00:02 PM
Autor: João Barreta
Categoria:
 
João Barreta
27 setembro 2016
Apesar de não ser aceite de igual forma por todos, pelo menos em épocas que todos julgaríamos ultrapassadas, e por vezes nem sempre superadas, o que é facto é que os comércios que subsistem são aqueles que têm clientes, que têm procura, que vendem aquilo que … se compra.

Poder-se-ia, quiçá, deixar aqui a destrinça entre clientes, compradores, consumidores e/ou "meras" procuras, mas isso dar-nos-ia argumentação acrescida para enveredar por outros caminhos de discussão sobre o(s) comércio(s) de ontem, de hoje, de amanhã!

Para já, interessará consensualizar que a oferta acabou por se "moldar" àquilo que são as necessidades da procura - atual ou potencial (para os que trabalham com outros … horizontes). E isto é, efetivamente, … o Comércio.

É, de facto, neste tabuleiro que sempre se tem jogado o Comércio - por um lado os que, para (sobre)viver têm de comprar, por outro, os que, igualmente, para (sobre)viver, têm que vender!

Parecendo simples, direto e pouco gerador de controvérsia, constituir-se-á, já hoje, como tema de inúmeras reflexões, muitas delas centrando-se naquilo que se poderá apelidar de intensidade da manifesta e evidente pretensão - "ter de (…)"!

Tem-se por necessidade, tem-se por arte e ofício, tem-se por herança, tem-se por obrigação, tem-se por dever, tem-se por respeito e/ou tem-se por … ter!

Isto é, quem tem de comprar justificar-se-á com uma qualquer (de preferência bem identificada) necessidade sentida, podendo adquirir outro qualquer bem/produto/serviço que possa satisfazer a mesma necessidade, caso aquilo que inicialmente pretendia esteja indisponível, temporária ou definitivamente.

Haverá sempre, cada vez mais, um modo alternativo de poder substituir a forma como se satisfaz a necessidade. É a atual multiplicidade da(s) oferta(s)!

Por conseguinte, há uma determinada necessidade sentida que faz com que surja a vontade voluntária (também, de preferência!) de a poder satisfazer, sendo que para tal haverá sempre um bem/produto/serviço que preenche, ainda que possa ser de forma apenas parcial, os requisitos (pré)definidos, os sintomas, as caraterísticas ideais, a(s) vontade(s).

Em suma, haverá oferta para toda a procura!

Passando, agora, do patamar da compra para o patamar do consumo, tudo poderá parecer diferente. Se na compra se fica com a ideia de que se compra apenas aquilo de que se precisa, quando falamos de consumo fica a sensação que se compra quase sempre para além da(s) simple(s) necessidade(s).

Mérito(s) da(s) nova(s) oferta(s) ou demérito(s) das figuras que protagonizam a procura?

Neste contexto, talvez seja caso para concluir que já não será tão evidente que haja procura para toda a oferta! Daí que o "ter de …" quase dá lugar ao "tive que …", ou melhor, "tive de aproveitar" (!) (ao que acrescento, e talvez, seja mais prudente, algo do tipo "a procura foi forçada a aproveitar e a oferta aproveitou-se!).

Tal constatação pode ser, ainda, bem mais evidente quando há décadas existia o "livro", "o caderno", "o bloco" onde se assentavam as dívidas, no tempo em que se podia e ficava-se a dever na mercearia, e não só, pagava-se ao final do mês ou quando desse mais jeito. Neste tempo vendia-se e comprava-se, em simultâneo. As dívidas pagavam-se, não se eternizavam.

Depois veio o outro tempo, o nosso tempo, o do consumo, em que surge o crédito, onde se fica também a dever, por vezes, bem mais do que aquilo que se pode pagar, simplesmente adia-se o pagamento, muito para além do fim do mês, liquidando aquilo que se consumiu, quase de imediato, e com a estranha sensação de que não houve uma compra, pareceu-se mais com um negócio, de facto há uma negociação a montante de que a procura poucas vezes se aperceberá.

Já quem vende, tem como pretensão vender o que tem … à venda, sendo que a tal ideia de que o cliente compra aquilo que está à venda, que está disponível, já não vinga nos nossos dias. Isto porque a tal multiplicidade e as capacidades acrescidas da oferta e dos seus novos e/ou renovados formatos introduziram novas nuances na forma de pensar e de atuar dessa mesma oferta.

Poder-se-á dizer que num passado, que nos parece cada vez mais longínquo, a oferta ditava as regras, ou seja, perante um leque de escolha bem mais restrito, a procura limitava-se a comprar aquilo que a oferta tinha para vender, e pouco mais do que isso.

A oferta (só) vendia e a procura (só) comprava!

Hoje, e apesar de surpreendentemente, ainda, se discutir, em alguns círculos, questões de forma, como sejam, conceitos como o comércio tradicional, o comércio local, o comércio de rua, o comércio de proximidade, etc., os que avançaram para patamares mais pragmáticos de abordagem dos conteúdos, vislumbram um novo comércio, ou seja, aquele que, respeitando a génese do mesmo, ou seja, a satisfação plena das necessidades evidenciadas pela procura, moldam-se diariamente à procura, empreendendo, criando e inovando, conquistando mercado, espaço, quota, negócio, …, consumidores, pessoas, enfim, procura.

Mas tal postura irá ser assumida, mais cedo ou mais tarde, por todo(s) o(s) comércio(s), sendo que quem o não fizer, jamais será … Comércio.

Hoje, a procura, bem mais conhecedora, esclarecida e exigente, "dita as regras", pelo que a breve trecho também clarificará os conceitos - o Comércio, podendo ser discutido na(s) forma(s), sempre privilegiará o(s) conteúdo(s), pois, afinal de contas, é isso que faz todos os dias, quando abre a sua loja, monta a sua banca ou arruma o seu terrado!

Seja local, de rua, de proximidade, tradicional ou outro, há que Saber Ser Comércio l

(Artigo publicado na Revista CONSTRUIR

* Autor do livro "Comércio(s)! A que propósito? Conversas (im)prováveis com Fernando Pessoa
 
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