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Algarve tem a taxa de desemprego baixa: e agora?

Data adicionada : August 24, 2016 03:00:02 PM
Autor: Carlos Baía
Categoria:
 
Carlos Baía
12 agosto 2016




No passado dia 10 de agosto, foi conhecida a taxa de desemprego relativa ao 2º trimestre de 2016. O Algarve surgiu, pela primeira vez nos últimos anos, como a região do país com a mais baixa taxa de desemprego.

Mas, aquilo que, à primeira vista, pode parecer uma grande surpresa, não o terá sido, para os mais atentos. Em 2012/2013, o Algarve foi a região com a mais alta taxa de desemprego, acima dos 20%. No entanto, a partir do 2º trimestre de 2013, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (ou julho/13, de acordo com os dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional), o desemprego começou a baixar de forma gradual e sustentável, chegando a 8,1%, no 2º trimestre/2016. E, atrevo-me mesmo a dizer que, no 3º trimestre, a região ainda tirará algumas décimas àquele valor.

Para esta evolução terão contribuído dois fatores principais. O primeiro, e mais importante, o aumento do investimento e dinamismo dos nossos empresários, com grande destaque para o setor turístico, associado a uma (tímida) recuperação económica na Europa e à instabilidade política vivida no médio oriente, que desviou um numero significativo de turistas para o nosso país e região. O segundo, mas também igualmente importante, o conjunto de incentivos à contratação, concebidos e legislados pelo Governo da coligação que, de facto, se revelou como um incentivo à contratação, por parte das empresas.

Mas, chegados à situação de região com a taxa de desemprego mais baixa, sendo certo que tal só durará 2 trimestres, e a taxa voltará a subir no fim de 2016 e início de 2017, colocam-se um conjunto de dificuldades aos empresários e desafios aos decisores públicos: encontrar trabalhadores para satisfazer as (muitas) ofertas de emprego, que se encontram por preencher na região.

A tarefa não será fácil, senão vejamos:

- O principal setor empregador, o turístico, é um setor que tem uma remuneração média mensal dos trabalhadores inferior à média (dados do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia). Se aliarmos a este fator, o facto de grande parte das ofertas de emprego apresentar um carater sazonal, caraterística inerente ao setor, e ao facto de o custo com alojamento na região ser superior à média nacional, então teremos grande dificuldade em atrair trabalhadores de outras regiões do país.

Curiosamente, ainda não serão visíveis neste setor e na região, os mecanismos microeconómicos da lei da oferta e da procura, que estabelece que, quando existe escassez de um produto, no caso mão de obra, este tende a ser mais caro. Para já, isso ainda não se acontece, mas será inevitável que, a curto prazo, tal venha a acontecer;

- Dificilmente se repetirá a disponibilidade de mão de obra, que existiu no inicio dos anos 2000, em grande parte associada à vinda de trabalhadores de leste (homens) para a construção civil, sendo que as suas famílias também vinham e preenchiam os postos de trabalho menos qualificados disponíveis;

- Atualmente existe pouca mão de obra disponível na região, e, grande parte da que se encontra disponível, não detém as qualificações requeridas pelas empresas. De acordo com os dados do IEFP, no final do mês de junho/16, encontravam-se inscritos nos serviços de emprego ao Algarve 14.695 desempregados. Mais de metade (8.300), encontram-se afastados do mercado de trabalho há mais de 1 ano, com todas as consequências que isso acarreta ao nível da perca de competências, autoestima, e outros fatores, que vão tornando cada vez mais difícil o regresso ao mercado de trabalho.

Os grupos etários com mais desemprego são os 35-54 anos (6.723) e 55 e mais anos (3.856).

Existem 6.410 desempregados, com habilitações iguais ou inferiores ao 2º ciclo (6º ano).

Nem sempre os concelhos onde existem mais empregos disponíveis são aqueles onde existe mais mão de obra disponível. Veja-se o caso do concelho de Albufeira;

- Assistiu-se a uma diminuição significativa, no início de 2016, da atividade formativa na região. Veja-se a execução física do IEFP Algarve, relativa ao 1º semestre de 2016 que, por comparação com o período homólogo, registou uma diminuição de 40% (!) no número de formandos, passando de 12.540, em 2015 para 7.489, em 2016.

- Se somarmos ao cenário atrás apresentado, a inexistência de uma rede de transporte públicos que sirva as necessidades dos trabalhadores e empregadores, em número e pontos de ligação e em horários de funcionamento percebemos que, dificilmente um trabalhador que não disponha de viatura própria terá capacidade para aceitar uma oferta de emprego, longe do seu local de residência.

Perante este cenário, a questão coloca-se: o Algarve atingiu a mais baixa taxa de desemprego do país. E agora?

Sendo certo que a questão não terá uma resposta simples nem rápida, julgo que vale a pena apontar algumas pistas, que podem contribuir para o atenuar do problema:

- Será inevitável que as entidades empregadoras, no curto prazo, venham a aumentar salários, na competição por mais e melhores recursos humanos, e que reforcem a disponibilização de alojamento no pacote de benefícios a atribuir, para os trabalhadores vindos de fora;

- É necessário olhar para os desempregados, incluindo aqueles de idade mais avançada que, não tendo abandonado o mercado de trabalho por vontade própria, são ainda detentores de muitas competências, experiência e vontade de trabalhar;

- Por último, as entidades formadoras, com particular responsabilidade colocada sobre os serviços públicos de emprego, terão que aumentar rapidamente a oferta formativa nas áreas criticas, setoriais e geográficas, onde subsistem ofertas de emprego por preencher. Tem que haver pragmatismo nesta matéria. A formação tem que ser curta e direcionada, para que os formandos estejam disponíveis para trabalhar na próxima época alta. As empresas não podem, neste momento, esperar formandos que demorarão 1 a 2 anos, a concluir o seu percurso formativo.

Se estas medidas não resultarem ou não forem implementadas, então acredito que, dentro de 1 a 2 anos, os empresários algarvios terão como única solução possível o recurso a mão de obra recrutada fora do nosso país.

* Licenciado e Mestre em Ciências Económicas e Empresariais

 
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