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Obedecer cegamente às tradições é um caminho traiçoeiro

Data adicionada : August 03, 2016 01:00:02 PM
Autor:
Categoria:
 

02 agosto 2016


Qualquer cidadão analfabeto pode ser dono de uma riqueza cultural excepcional e, não raras vezes, pela sua experiência de vida, acumula uma sabedoria que falha a muitos catedráticos. Pode não ter aprendido a ler nos livros, mas aprendeu a ler a vida, na sua dureza, na sua crueldade, na sua rudeza, nos seus perigos, nas suas ciladas, nas suas hipocrisias. Mas, atenção, não podemos confundir estes sábios, sempre muito lúcidos e amantes da vida, com os armazenadores das regras tradicionais, catedráticos em regras, mas ignorantes da vida real, algo que nos obriga a estar sempre em movimento, sempre na estrada. E, na vida, aprendemos que, cada um tem de construir o seu caminho. Ninguém pode ficar parado, amarrado a regras arcaicas dos tempos em que se vendiam irmãos como escravos.

Uma tradição não é para obedecer cegamente. Ao longo dos tempos, muitas se perderam, quase sem darmos conta, pois elas eram um obstáculo ao bem-estar do cidadão comum. Outras terão de desaparecer, pois são como uma lepra que corrói o corpo e a alma e nos transforma num trapo de limpar o chão, sem personalidade, sem alegria, sem vontade. Todos sabemos que muitos teimam em impor certas tradições, como forma de poder. Sem essa autoridade, ninguém lhes teria respeito. É o caso dos feitiços e dos casamentos precoces. Dão poder a quem os impões, mas são tradições irracionais que só acumulam infelicidade, fome, desencanto, miséria.

As autoridades tradicionais, os pais, os professores, as forças da ordem e todos quantos tenham poder de intervenção junto das comunidades têm o dever moral de lutar contra estas pragas que continuam a flagelar gerações e a destruir a riqueza dos países.

O caminho mais correcto para combater as tradições que matam e as superstições estúpidas que têm de acabar é o da educação. Apostar numa educação acessível a todos, obrigatória, é a forma mais inteligente de nos armarmos contra a ditadura de tradições arcaicas, que nos sujeitam, nos roubam a liberdade de sermos nós, nos privam do direito de escolhermos o nosso caminho.

O problema dos casamentos precoces, que, recentemente, foi levado ao Parlamento, em Moçambique, é um caso típico de falta de vontade política para ser resolvido. Todos sabemos que os casamentos precoces contribuem para a miséria das comunidades e para a ruína e a humilhação da mulher. Ninguém ignora que miséria gera miséria, que muitas das crianças assim nascidas vão ser mais um elo na cadeia da má qualidade de vida. Ninguém ignora que tirar uma mulher da escola, abusando-a ou casando-a precocemente é um crime que deve ser punido com rigor e sem misericórdia. Quando um professor abusa de uma aluna, não tem lugar no ensino, quando um pai tira uma filha da escola para a casar, impedindo-a de seguir um percurso normal que lhe permita construir um futuro de mais liberdade, de mais bem-estar, de mais alegria e amor, de mais progreso pessoal e comunitário, está a praticar um crime moral muito grave, usando a filha como moeda, como se ela fosse uma coisa sem alma de que pudesse dispor a seu belprazer. Uma criança é um ser precioso, cujo futuro ninguém conhece. Uma criança é um mistério que temos de preservar, de lhe criar condições para desabrochar, para cultivar e desenvolver as suas capacidades. Uma criança não é um objecto, nem uma moeda de troca, nem o abono de família de ninguém.Qualquer presidente da república, qualquer ministra ou deputada já foram crianças. Hoje, são alguém porque lhes criaram condições para o serem.

Então, sobretudo os políticos, têm o dever e a obrigação de lutar apara acabarem com certas tradições e exercerem o seu poder para eliminar esse fenómeno desastroso de tirar uma criança da escola para a pôr a trabalhar ou para a casar.

Que ninguém chore lágrimas de crocodilo. Façam o que devem: façam cumprir as leis, criem condições favoráveis para que a educação seja, de facto, para todos. A educação nunca pode ser só para as elites, sob pena de a maioria dos cidadãos se transformarem num imenso rebanho de carneiros ao serviço de interesses inconfessáveis.

 
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