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MOTIVAR OU MOBILIZAR? 2

Data adicionada : April 26, 2016 03:00:05 PM
Autor:
Categoria:
 

26 abril 2016


Em Junho de 2000, afirmava-se no preâmbulo do "Programa Educação para Todos" que

"Os jovens são o garante do futuro da Humanidade, e a "herança" que os adultos lhes deixarem será determinante. Liberdade, tolerância, compreensão de si e dos outros, capacidade para agir em diferentes momentos e situações - no grupo de amigos, nos tempos livres, na escola/trabalho, na família - são valores de que os jovens se virão um dia a orgulhar."

Pelas práticas que a Escola Portuguesa continua a desenvolver, inclino-me a pensar que, mais uma vez, temos tendência para as grandes afirmações mas, depois, esvaziamos o conteúdo das palavras. A estudiosa Margarida Gaspar escreveu, a propósito dos resultados do inquérito feito pela OCDE aos adolescentes, recentemente: "Há qualquer coisa nos métodos de ensino, na sequência das aprendizagens, na selecção dos assuntos prioritários e basilares, no sistema de avaliação, na dinâmica social e educativa das escolas, etc., que devia fazer parar o país para pensar". Estou inteiramente de acordo com ela.

Temos o dever, perante os resultados e o descontentamento generalizado dos nossos adolescentes em relação ao ensino, de nos interrogarmos diante de um aluno que não tem sucesso. O que estará a acontecer? Cabe-nos a nós descobrir. A desculpa que tantas vezes nos é apresentada de que o aluno não triunfa porque não está motivado, não tem razão de existir. Será que o aluno não está motivado porque nunca conseguiu ter a experiência de a escola o ensinar a adquirir, a utilizar e a transmitir a outros novos saberes? Se um aluno sente que não consegue, desanima e desiste. Costumamos dizer que se desmotivou. Acontece com todos, durante a nossa vida. Se não conseguimos ultrapassar os obstáculos que temos de derrubar, muitas vezes desistimos. E, como é humilhante desistir, muitos alunos e cidadãos passam para o lado da rebeldia, quando não da marginalidade. É sempre preferível a imagem de rebeldia, de protesto, de confronto, do que a de rejeitado, de humilhado, de excluído. Um insucesso voluntário é sempre menos humilhante do que reconhecer que, mau grado os esforços feitos, não se consegue.

Todos os alunos precisam de professores tolerantes, disponíveis, mas, ao mesmo tempo, curiosos e exigentes. Os alunos precisam de desafios difíceis e acessíveis simultaneamente, desafios que os ajudem a aprender a ultrapassar as dificuldades, que os ensinem a ganhar uma autonomia para sempre, a vencer progressivamente os obstáculos sozinhos, sem estar sempre a recorrer a muletas. É, especialmente por isso, que uma escola democrática não pode nunca fazer da motivação um requisito do acto de aprender, porque não é o aluno que tem de se motivar. Cabe à escola motivá-lo para o saber e para a cultura. O ensino público obrigatório não se compadece com a selecção nem com a exclusão. Todos têm de aprender porque a escola pública existe para ensinar a todos os cidadãos os fundamentos da cidadania.

Por sua vez, os professores não precisam de mais legislação para trabalharem de outro modo, nem podem estar à espera que o desejo de aprender surja numa manhã de nevoeiro. A civilização mudou. Existem hoje ferramentas e condições que não existiam ainda há poucos anos. Há que formar-se e informar-se. Há que estudar. Há que trabalhar para que se pratiquem estratégias e se criem condições para mobilizar os alunos, entusiasmá-los, convencê-los de que precisam de adquirir os saberes necessários para o seu sucesso enquanto estudantes, enquanto trabalhadores, enquanto cidadãos.

A escola como a conhecemos não passa de um enorme bocejo.

 
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