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MOTIVAR OU MOBILIZAR?

Data adicionada : April 20, 2016 06:00:04 PM
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Categoria:
 

19 abril 2016


Ao longo dos tempos, houve quem defendesse que as crianças tinham de sujeitar-se a aprender o que os adultos queriam que aprendessem, enquanto outros defendiam que deveria esperar-se pelo momento em que as crianças manifestassem o desejo de aprender. Pensava-se que o desejo de aprender ou a curiosidade nasceriam espontaneamente. Essas convicções condicionaram o ensino durante séculos, já que, os primeiros protegiam os alunos mais dóceis, enquanto os segundos ficavam à espera que o desejo de aprender surgisse. Ainda hoje, os alunos que não se adaptam ao que o professor decide, acabam expulsos da sala de aula e, tantas vezes, do ensino.

No princípio do século XX, saltou-se para outro exagero: a criança tinha de ser respeitada nos seus direitos, o que levou a uma espécie de abstencionismo pedagógico. É o tempo das Novas Pedagogias: a criança não podia ser restringida, nem forçada a aprender. Tinha de se esperar que o aluno pedisse para ser ensinado. Aconteceu que os alunos aprendiam com professores que os encantassem e recusavam aprender com os que não tivessem o dom de os cativar. Instalou-se o apetite por determinadas disciplinas e o pavor por outras, tudo dependendo, nem tanto do saber dos professores, mas da sua habilidade para acamaradar com os alunos. Todos nos lembramos ainda dos professores que nos deixaram boas recordações e daqueles de quem nem queríamos ouvir falar.

Há que ter em conta que existe uma diferença substancial entre o desejo de saber e o de aprender. Praticamente, todas as crianças querem saber, mas nem todas estão disponíveis para percorrer os caminhos difíceis e eriçados de dificuldades da aprendizagem. Todos preferem os atalhos optando pelo processo mais rápido e mais eficaz. Não é por acaso que, em alguns países africanos, começam a aparecer as chamadas escolas do saber prático, onde se prioriza a aprendizagem daquilo de que todos precisam para se desembaraçarem no dia-a-dia das suas vidas difíceis.

A pouco e pouco, foi-se construindo a problemática da motivação, isto é, perceber como ir ao encontro dos interesses do aluno. No entanto, é muito difícil definir quais são os interesses do aluno, sobretudo, é complicado dizer que o que não interessa ao aluno, hoje, nunca lhe fará falta, amanhã. Quantos alunos se interessam naturalmente pela matemática, por exemplo? Célestin Freinet, pioneiro da motivação do aluno, inventou, a propósito, a pergunta "Como levar um cavalo a beber quando ele não tem sede?" Mas, esqueceu-se de referir que esse problema se resolveria com o tempo, isto é, quando o cavalo tivesse sede, acabaria sempre por beber.

Modernamente, temos de descartar a ideia instalada de que a motivação deve obrigatoriamente preceder a transmissão de conhecimentos. Pensar que a motivação tem de ser um requisito anterior a uma situação de ensino-aprendizagem é tornar o sucesso como algo de individual, extremamente limitativo. Também não podemos imaginar que um aluno deseje o que não conhece. No fundo, quem assim pensar, acha que não há força mobilizadora nos saberes, o que acaba por significar que o sucesso estará reservado apenas para aqueles que, por si, ou com ajuda, já interiorizaram os benefícios que lhe advirão se escolher determinadas aprendizagens. Desaguamos sempre no mesmo: escola para elites ou escola democrática? É, pois, evidente que, nos dias que correm, quando as novas tecnologias podem ser um aliado entusiasmador, devemos começar por substituir o vocábulo "motivação" por "mobilização".

 
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