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O GRANDE EQUÍVOCO

Data adicionada : March 22, 2016 06:00:07 PM
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22 maro 2016


O estudo da OMS, relativo ao período de 2014/2015, sobre a adolescência portuguesa, ao afirmar que os jovens portugueses, na sua grande maioria, não gostam da escola e que o " problema são mesmo as aulas, consideradas aborrecidas, e "a matéria", que é descrita como excessiva" (Público, 16/03/2016), vem dar-nos razão quando, por mais de uma vez, aqui afirmámos que o sistema de ensino português está obsoleto.

A educação portuguesa enferma de vários erros graves que precisam de uma discussão urgente que envolva todo o país, já que o tema é de uma importância incontornável para o progresso de Portugal. Todos têm de ter uma palavra a dizer, pois, enquanto a Educação se mantiver no estado caótico em que vem definhando há umas dezenas de anos, este país não tem futuro. Não é por acaso que Portugal é um dos países mais atrasados da Europa, desprovido de ferramentas que o arranquem às crises sucessivas que nos têm afligido e que vão criando rios de emigrantes e de pedintes. Quase todos, incluindo a maioria dos nossos políticos, estamos marcados com o ferrete de uma educação que deixa muito a desejar..-

A desactualização do nosso ensino é flagrante: não podemos, na era do digital, continuar a ensinar como na Idade Média, com o senhor do saber a debitar a matéria, tantas vezes pendurado no quadro, de costas para os alunos, convencido de que está a dar uma aula esclarecedora, sem se dar conta que os alunos há muito que desligaram, pois, na era do digital, todos somos parceiros uns dos outros e o saber está ao alcance de todos. Ninguém tem paciência para assistir a uma aula nos moldes antigos. O professor tem a responsabilidade de se preparar para ser o coordenador, o filtrador, do processo, senão, corre o risco de ficar na dependência da geração que parece nascer já com a Internet na ponta dos dedos.

Todos os problemas que nos preocupam e enchem a comunicação social têm a ver com este problema de fundo.

Exames? Manuais escolares gratuitos? Número de alunos por turma? Arquitectura das escolas? Indisciplina nas aulas? Absentismo? Exclusão?

Na verdade, não há varinha mágica que nos acuda, mas, há formas de motivar, de interessar os alunos, de os prender, de os pôr a pensar, de os entusiasmar, de os levar a gostar de estar na escola, de os interessar pelos problemas da comunidade, de os envolver na procura de soluções, de os tornar mais fraternos, melhores cidadãos, gente que goste do seu país, que queira conhecer a sua história, que lute por torná-lo melhor. Hoje, com os Tablets, com os samartphones, com os computadores, com a Internet, não precisamos de gastar fortunas em manuais, não precisamos de carregar mochilas a abarrotar de livros. Está tudo ao alcance do toque de um dedo. Já ninguém fala, no mundo civilizado, em reduzir o número de alunos por turma. Antes pelo contrário: juntam-se as turmas com os professores e outros interessados no aprofundamento dos temas. Todos investigam, todos discutem, todos procuram soluções, todos tentam descobrir o que realmente interessa ao colectivo. Sistematizada a matéria, aprendida desta forma dinâmica, os exames tornam-se obsoletos. Só se justificam, no nosso país, porque sabemos que uma grande parte dos professores falta muito, ensina mal, e, quase viraram burocratas cumpridores de rotinas. Os exames aparecem, nesse contexto, como um mal menor, pois são a única forma de pressão que se conhece para pôr as escolas a funcionar e uma legião de editoras e de explicadores a fornecer o que os alunos deveriam encontrar na escola. Com a pedagogia invertida, os alunos podem fazer os seus manuais, pesquisar os temas relacionados com a matéria e com a vida que programas actualizados deveriam conter. Nada do que aprendemos na escola se justifica se não servir para fazer de nós melhores pessoas e melhores cidadãos.

É urgente formar professores para os novos tempos que vivemos, conceber a escola para um futuro que já é presente, dimensioná-la em conformidade, rever urgentemente os programas, estudar como conceber os tempos escolares (os 50 minutos são ridículos). Nada disto é novidade, mas vamos sempre adiando. Já há excepções no nosso país. Há escolas que abraçaram a digitalização, com sucesso. Além do mais, quando um aluno se interessa, resolve-se automaticamente o problema do absentismo e da exclusão. Passarão a ser questões residuais que todas as sociedades têm. Não podemos conceber que haja uma espécie de ensino especial para falhados, com cursos de faz-de-conta onde se dá a oportunidade de fazer uns pastéis de bacalhau, ou coisa que o valha, numa ilusão de um futuro feliz que, no fundo, não passa mesmo de uma ilusão para quem, à partida, já foi excluído e impedido de sonhar. Não se trata de uma segunda oportunidade, mas, de uma segunda escolha sem nível. A Educação tem de ser igual para todos no sentido de que tem de fornecer as mesmas ferramentas e dar as mesmas oportunidades de triunfar tanto aos que nasceram num berço dourado como aos que vieram ao mundo num bairro degradado. Todos são pessoas, todos têm direito a triunfar. Todos podem, se quiserem e forem ajudados a preparar-se para o sucesso. Não podemos continuar a assistir a esta degradação que é tratar como párias todos quantos não se integram nesta escola obsoleta. Não são os alunos os culpados. Somos todos nós, que continuamos a fazer-de-conta que tudo corre bem, quando somos dos países com mais absentismo e desistências do ensino. Um país onde há cidadãos de primeira e de segunda não tem futuro. Todos temos de ser parte da solução.

A pedagogia invertida parece-me, hoje, o melhor caminho para uma escola autenticamente democrática.

 
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