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"CAFÉ CALCINHA"

Data adicionada : December 14, 2015 03:00:03 PM
Autor: José Manuel de Sousa
Categoria:
 
José Manuel de Sousa
14 dezembro 2015


A origem deste nome atribuído a um café de Loulé, na origem da sua atribuição, aparentemente viaja desconhecido para todos louletanos. E é como base, e pedra de toque, à volta deste vocábulo - Calcinha - , que nos propomos gerar algumas pistas acerca da identidade e do património cultural de Loulé.

Será uma pequena viagem de muitos séculos até concluirmos em síntese, as origens da nossa História de Portugal, conotada com a da Galiza, pela língua e pelos factos, nossa verdadeira prima-irmã, mais do que Castela, contra quem, sempre pelejámos.

Comecemos pelo que nos une a Galiza - , a língua:

A língua portuguesa tem demonstrado ser um sistema dúctil, aprazível e inventivo. Vem a este propósito o vocábulo "calcinha", um substantivo do género feminino, ou um diminutivo por corruptela quando utilizado pelo povo em aproveitamento pícaro para esconder determinada realidade, transformando-a em calão. Talvez, ainda que dicotomicamente, a propor um "estudo caso" lexiológico local.

Desde a fundação de Portugal (1143), o idioma falado no Norte distinguia-se do castelhano e aproximava-se do galaico: e a língua galega era a de D. Afonso Henriques.

Uma das maiores virtudes da língua portuguesa (de característica policêntrica) tem sido o seu cosmopolitismo capaz de assimilar de forma híbrida ao nosso léxico outros materiais de diferente génese provenientes das nossas diversas viagens transoceânicas com história diferente, aceitando e adoptando a linguagem de outros povos por onde Portugal colonizou. A nossa língua: sintaxe, léxico, semântica, fraseologia proveniente e enxertada no latim da Galécia, une-nos depois de 1500 anos de língua comum.

Subsídios para a história do "Café Calcinha", a partir da multicentenária diáspora proveniente da Galiza em Portugal, enquanto nações irmanadas pela língua e pela história.

Através de um "post" no Facebook, com foto dos "Amigos do Café Calcinha" datada de 6 de Maio de 2014, publicada no mural de Luís Guerreiro, aqui reproduzimos (com a devida vénia) parte do seu conteúdo, introduzindo o nosso principal personagem Virgílio Alvarez Fernandes, que, pelo seu sobrenome, indicia ser um cidadão espanhol de origem galega que se radicou em Portugal, e citando ipsis verbis, o teor conteudístico desse, ora citado "post", transcrevemos: «[...] em consequência da Guerra Civil de Espanha. Ficou na memória dos louletanos como o Conde dada a sua maneira sofisticada de falar […] Ao passar novamente de mãos ganhou, por batizo popular o nome de Calcinha. Alcunha pelo qual era conhecido José Domingos Cavaco que reabriu o negócio, em 5 de Junho de 1929 sob a designação comercial de Café Louletano [...]».

A este propósito discursivo ora transcrito, constatamos a incongruência de duas afirmações:

a) No "Laboratório da Memória" realizado no Café Calcinha (11/XII/2015) foi declarado por dois ou três circunstantes louletanos, e corroborado por outros presentes, o facto de José Domingos Cavaco, (nem o seu irmão) jamais ter sido conhecido e apodado pela alcunha, talvez apoucada, do "Calcinha";

b) A Guerra Civil de Espanha aconteceu entre os anos de 1936-1939, e jamais em 1929, conforme é referido na peça, porquanto não houve nesse período nenhuma guerra em Espanha. Quando muito e deveras grave, aconteceu a crise mundial bolsista (crash) nova-iorquino em 1929, que influenciou de forma determinante os destinos do mundo ocidental: e daí, o nosso "conde", pessoa avisada, haver decidido(?) trespassar o café: também "esta tirada", a ficar por conta "do nunca saberemos".

Ora, pela sua "maneira sofisticada de falar" (do Conde), concluímos que, apenas a sua fala galega poderia ser correntemente perceptível para os algarvios, já que, se fosse da vizinha Andaluzia seria praticamente irreconhecível para a maioria dos louletanos, pela sua forma andaluza corrente, rápida e cerrada de falar. Mas, pelos vistos o "conde" não desvelaria a sua origem galega, já que a imagem dos galegos em Lisboa estava muito mal-vista. Curiosamente e a este propósito, atentemos (ipsis verbis) nesta notícia publicada no Jornal Republicano Radical em 1912; sob o título "O roubo nos pesos e nas medidas escrevia entre outras coisas, o mais refinado ladrão n´esta especialidade é o galego tasqueiro, taberneiro, carvoeiro e merceeiro. Este figurão vindo do norte, cheio de ronha e porcaria, é aceite em Lisboa como homem honesto e trabalhador". (sic) Deste modo e perante este enorme estigma que o povo lisboeta tinha contra os galegos, era natural que o "conde" ocultasse as suas origens de nascimento. E talvez seja partir do seu "falajar" galego que ele teria sido o patrono do vocábulo "calcinha", aquando os louletanos quereriam um cálice de aguardente. O café, ao tempo do "Conde" intitulando-se pelo vulgo de "calcinha", assim poderia ter sido baptizado, e foi adoptado, de uma forma geral pelos louletanos, seus clientes, por "café calcinha", porque, quando José Domingos Cavaco tomou de trespasse este estabelecimento, já assim este café seria conhecido na vila, e assim ficou. Todas as línguas se prestam a brejeirices e a trocadilhos oportunos e pícaros. E este "calcinha" não terá escapado à regra.

E porquê, o "conde" Virgílio Alvarez Fernandez seria de origem galega...? Pela simples razão da Galiza ter sido o maior fornecedor de mão-de-obra a Portugal para ajudar a reconstruir a cidade de Lisboa pós terramoto de 1755, chegando a serem mais de setenta mil galegos. Pelo primeiro censo realizado em Portugal ordenado por Pina Manique em 1801 (e com vista a outras regiões), ficamos a saber que, para o Alentejo e Algarve no período das ceifas vinham cerca de dez mil galegos. Em 1920, a Galiza era ainda uma das regiões mais pobres de Espanha, originando que houvessem mais galegos vivendo fora de Espanha do que na própria Galiza.

Esses operários trabalhando e vivendo economicamente em Portugal, conseguiram um pecúlio que lhes permitiria estabelecer-se com pequenas tabernas e vendas, onde mercadejavam um misto de tudo o que o humilde cidadão necessitasse. Com o decorrer dos tempos tornaram-se grandes empresários da restauração, a tal ponto que, ainda hoje dominam todos os melhores restaurantes e hotéis da cidade de Lisboa e, um pouco por todo o país. Portanto, pela sua capacidade empreendedora, é fácil admitir que o "conde" era galego, e que, no Algarve, nomeadamente em Faro e Tavira, haviam imensos galegos (judeus sefarditas galegos) proprietários urbanos e rurais, ao ponto de passarem na sua aculturação algum léxico seu. Tomemos como exemplo o vocábulo "avondo" ser de origem galega. Mas poderíamos citar outros casos lexicais correntes no nosso dia-a-dia louletano.

Passemos agora, objectivamente, ao Café Calcinha:
De estilo tardio, o Café Calcinha adopta de forma minimalista, a decoração de interiores da escola romântico-naturalista francesa do século XIX (de madeiras exóticas ultramarinas nas paredes, e gessos moldados nos tectos). Esse estilo fôra adoptado nos cafés da Lisboa pós-modernista do século XIX, fundados por italianos: o Nicola, Ferrari, Marrare (com os seus espelhos), A Brasileira, Martinho da Arcada (1782), Magestic, no Porto, e porque não, o Café Aliança, em Faro.

Estes cafés constituíram fóruns através das suas tertúlias, em que os frequentadores trocavam entre si histórias picantes e notícias, e onde se combinaram à mesa revoluções, mas também centros literários da Lisboa cosmopolita de então: desde os arcadianos Filinto e Bocage até Antero, Eça, Camilo e Almada Negreiros, jamais esquecendo o órfico Fernando Pessoa, do onírico "5º império", de resto e como se sabe com residência fixa à porta da Brasileira no Chiado.

O Café Calcinha, como bem demonstram a seu respeito as fotos da época, foi um grémio e ponto de convívio, onde os frequentadores trocavam entre si histórias picantes e notícias; e, em que industriais e comerciantes, entre os quais, grandes armazenistas de frutos secos combinavam em surdina, os preços a pagar aos lavradores. E foi também o primeiro estabelecimento a possuir em Loulé, uma mesa de bilhar. Sendo que, e já agora a este preceito do bilhar, realcemos o facto muito comum à época de o jogo de sorte e azar (batota) ser tolerado nos cafés, clubes e grémios de então, algo que seria definitivamente proibido a partir do início dos anos trinta do século passado.



Nota final: ao não podermos afirmar (para já...! [no futuro próximo procuraremos fazer]) de forma redentora nem peremptória as origens do vocábulo "calcinha" ligadas ao "conde": aqui deixamos esta achega para a compreensão da história do Café Calcinha (e de uma forma geral antropológica, integrada no contexto geral do país); pela sua importância institucional no pulsar da cidade de Loulé, enquanto memória e património imaterial da sua cultura.

Obviamente, para além do "café de saco" eram servidos nesses estabelecimentos: chá, chocolate, champanhe, capilé, bebidas licorosas e destiladas, tais como o "mata-bicho" pela aguardente (no caso louletano) de medronho, em cálice, e quem sabe a partir daí, e de forma velada, um "calcinha"...? Não olvidemos também, que, nesses primeiros anos era moda da "calça à boca de sino", assemelhando-se a um cálice virado ao contrário quando levado à boca.
 
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