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AS SOMBRAS, AS LUZES E AS LUMINÁRIAS

Data adicionada : May 04, 2015 03:00:04 PM
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04 maio 2015
Numa tarde sonolenta como a de ontem, sem futebol de jeito, cansado de visualizações repetitivas e mais que previsíveis, e de noticiários trágico-cómicos, decidi-me por uma sessão de cinema: "As 50 sombras de Grey" e "Livre".

Escondam lá os vossos sorrisinhos e vamos ao que interessa: valeu a pena passar uma tarde, meio a dormir, meio acordado, a visionar um filme de que ouvira as mais diversas opiniões e que, no meu subconsciente, jurara nunca ver, como nunca li o livro, oferecido por um dos meus filhos à mãe, já faz uns anos, e que andava perdido em cima do guarda-fato, onde um outro filho o foi desencantar, a quando da publicidade da estreia do filme? Pois tenho de confessar que, depois de, em vários momentos ter estado a ponto de desistir e de dar razão aos que acham que "As 50 sombras" não passam de mais um filme porno, comercialão, uma forma hábil de fazer fortuna sem grande esforço, tenho de confessar que me enganei, no essencial da questão. Concordo que a mensagem poderia ter sido passada de outra forma, mas, num tempo em que o que manda é o "marketing", seria difícil chamar pessoal às salas de cinema sem esta pincelada de aparente pornografia para fazer passar uma mensagem importante. Num clima de gente obcecada com sexo, o que é evidente, nos noticiários, nas previsões das bruxas, nas telenovelas, nas formas de vestir e de se apresentar, nos escândalos e crimes para todos os gostos, seria difícil, repito, chamar clientes a um filme parecido com os que os adolescentes, e não só, visualizam ao alcance de um "click".

Vamos lá, então, dar a minha opinião, muito diferente da que tinha pre-concebido e da que vejo por aí escrita em jornais e revistas da "especialidade" cinematográfica, digamos.

O tema é conhecido: em sexo, vale tudo?

Do que tenho lido e ouvido, contra o que eu penso, é que vale tudo, pois, em sexo, a maioria das pessoas acha que só conta o prazer e ninguém ignora que vivemos rodeados de gente para quem a vida não é mais do que a busca do prazer imediato. É uma forma primitiva, muito primitiva, de estar na vida, mas é, infelizmente, a realidade. Ora, o filme chama a atenção para este erro fatal e diz-nos que, afinal, não vale tudo. Também no sexo, como na democracia, a nossa liberdade de acção acaba quando entramos na esfera da liberdade do outro. Por isso fiquei contente e validei a mensagem quando, no fim, o todo-poderoso Grey recebe um não da frágil Anastásia que se recusa a obedecer aos desejos doentios de uma personagem que precisa de tratamento psiquiátrico e de aprender que há sítios para loucos viverem, muito diferentes do seio normal de uma comunidade. A maria-ninguém Anastásia ensinou ao Sr. Grey, habituado a mandar e a decidir, que, na vida, só tem valor o que partilhamos em liberdade e que tem de ser proibido o que impomos aos outros só porque temos dinheiro e poder. Anastásia consentiu em partilhar com Grey as fantasias que lhe davam prazer, mas recusou liminarmente transformar-se em objecto sexual, como o machão desejava.

O outro filme que vi a seguir, "Livre", complementa, de certa forma, o anterior, pois passa a mensagem do valor da procura da liberdade dentro de nós, isto é, como é importante aprendermos a conhecer-nos interiormente, sem cedermos a pressões, sejam de que natureza forem, íntimas ou sociais, para descobrirmos, afinal, quem somos, como somos, por que somos? A pessoa humana, na sua complexidade, nas suas grandezas e vilezas, deve viver como uma lagartixa, à procura de sol, de comida e de sexo? Ou tem algo dentro de si, para além da satisfação das necessidades básicas, que vale a pena conhecer e cultivar? Seremos simples animais como tantos, ou somos "ninguéns" que, apesar da nossa fragilidade e do nosso anonimato, temos valores desconhecidos dentro de nós, que vale a pena descobrir e cultivar?

Devo confessar que, neste ambiente de mediocridade que vivemos actualmente, de hipocrisia, de mentira, de mesquinhez, de ganância, de palhaços disfarçados de políticos que nos afundam os sonhos, de depressão, de desesperança, a visualização destes dois filmes foi como uma lufada de ar fresco e refrescante, pois veio confirmar-me que ainda há quem pense nas pessoas e quem acredite que a luta pela liberdade existe, embora, nem sempre nos seja apresentada de uma forma evidente e directa. Numa tarde de contornos tão inocentes e rotineiros, consegui relembrar-me de que vale a pena continuar a pensar e a lutar.

 
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