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ÁFRICA PRECISA DE ACREDITAR E DE SONHAR

Data adicionada : April 27, 2015 03:00:04 PM
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27 abril 2015
Ainda que os números do desastre africano sejam assustadores, continuo a acreditar que este poderá ser o continente do futuro, uma autêntica reserva da Humanidade. Tudo depende das suas gentes e das suas escolhas. Uma questão fundamental prende-se com a escolha de parceiros que apoiem as políticas de África. Há aqueles que se misturam com os africanos, que se empenham na valorização dos recursos humanos, que investem num desenvolvimento sustentado, mas há outros que vão a África para explorarem a terra, as riquezas naturais, o trabalho barato dos africanos. Enquanto uns trarão riqueza e desenvolvimento local, os outros estarão mais interessados em criar riqueza que aproveitará mais aos seus países do que propriamente às populações africanas.

Ora, ninguém está previamente condenado ao fracasso, a não ser que fique sentado, à espera que chova. Revolta-me que o mundo teime em olhar para África como a terra dos coitadinhos de quem é obrigatório termos comiseração. Tudo pode ser diferente, se os africanos quiserem, realmente. Os números da fatalidade preocupam, evidentemente, mas podem e devem ser revertidos.

Hoje, um terço dos pobres do mundo vive em África (em Portugal, não é muito diferente, com um quarto dos portugueses no limite da pobreza). Contudo, abundam ilhotas de prosperidade dos bem instalados no poder ou nos negócios, um mundo cheio de cumplicidades. Os seus filhos frequentem escolas caras ou emigram para os colégios e as universidades estrangeiras, com lugar especial reservado para quando regressarem. Entretanto, centenas de milhões de sobreviventes esfomeados lutam pela sobrevivência precária. Por vezes, dá-se a explosão: manifestações violentas, morticínios, xenofobia, pilhagens caóticas para ganharem mais uns dias de vida.

Às doenças típicas das zonas tropicais e de uma população mal informada e desprotegida, como a malária, a doença do sono, a cólera, a ébola, e outras, vieram juntar-se as maleitas das sociedades ditas civilizadas: as cardiovasculares, a diabetes, a sida (25 milhões de infectados, sendo 3 milhões crianças contaminadas pelas mães).

África continua a gastar biliões de dólares a comprar produtos agrícolas que poderia produzir nas suas terras prósperas que, sem rasgo político, são subtraídas aos camponeses e entregues a reservas e a multinacionais que enriquecem com a ruina dos africanos.

Poucos sabem que a primeira causa da mortalidade nem sequer são as doenças ou a fome, mas os acidentes de circulação. Atravessar uma estrada, ou percorrê-la durante uns quilómetros, pode ser o passaporte para o funeral, para um desaparecimento misterioso ou para a incapacitação para o resto da vida.

Estes números deverão ser olhados como uma fatalidade inelutável? Não acredito. Tudo pode ser diferente, exigindo, evidentemente, uma outra maneira de actuar, uma outra maneira de escolher os parceiros e as políticas, um querer que a transformação aconteça mesmo. África pode, na verdade, ter um quarto da população mundial bem alimentada, protegida socialmente, instruída. Para tanto, é preciso enfrentar lutas sérias e duras, de que damos alguns exemplos a seguir:

- empenhar-se numa educação moderna, em simultâneo com uma adequada preparação de quadros;

- proporcionar novas oportunidades de formação a toda a população;

- acabar com as disputas violentas entre líderes;

- respeitar a religião, a cultura, a cor e a opinião do outro;

- optar por uma democracia que assegure a liberdade, a justiça, a assistência social, a educação, serviços públicos de qualidade, civismo, empenho de todos os cidadãos.

- incrementar uma política da terra que proteja os camponeses de modo a aumentar a produtividade, proteger os solos, evitar a despesa com a importação de produtos que podem ser cultivados localmente, acabar com a fome de milhões de seres que não têm outra saída que não seja a agricultura, em cujo ensino é preciso apostar urgentemente.

- adoptar políticas de combate à corrupção, às injustiças, às desigualdades, à política da mão estendida;

- recusar todas as ONG’s que encarem a sua actuação como uma ajuda aos coitadinhos, sem apostarem num desenvolvimento sério. Na maior parte dos casos não passa de uma mascarada de acções de formação, sem consistência, deixando para trás um certificado inútil que não dá garantias nenhumas de formação para os postos de trabalho que ocuparão. A acção destas ONG’s é das mais ruinosas e preocupantes para o futuro de África. As ONG’s da caridadezinha têm de acabar já. Aliás, esta mentalidade está relacionada com as diferentes cimeiras que, de vez em quando, se reúnem num qualquer lugar do mundo para decidirem sobre o destino de povos cuja realidade desconhecem totalmente. E tudo se prende com uma atitude generalizada de comiseração, de desrespeito, de alienação em relação aos africanos.

Com a adopção destas e de outras medidas cujo objectivo seja valorizar as populações africanas, acreditamos que o futuro poderá ser risonho e África acabará por ocupar o lugar que legitimamente lhe pertence. Exige-se um projecto nacional, discutido e aprovado por todos os cidadãos. Só assim se pode, depois, esperar o empenho de cada um. Quando trabalhamos numa coisa nossa a motivação remove montanhas.

O povo africano tem de decidir o que quer, mas não pode esquecer as lições da História e a sabedoria da experiência que nos dizem que o ódio gera ódio, que a xenofobia só tem causado morticínios, atraso, dor, destruição. Todos são precisos para o desenvolvimento de um projecto africano que não exclua ninguém, um projecto escolhido entre todos, respeitando todos, incluindo todos, discutido por todos.

 
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