Boa Tarde !     Utilizadores Online:       

DISTRITOS
Algarve
Aveiro
Beja
Bragança
Braga
Castelo Branco
Coimbra
Évora
Guarda
Leiria
Lisboa
Portalegre
Porto
Santarém
Setúbal
Viana do Castelo
Vila Real
Viseu
Açores
Madeira
main
main

Da realidade à construção pela escrita de Günter Grass

Data adicionada : April 19, 2015 03:00:03 PM
Autor: José Manuel de Sousa
Categoria:
 
José Manuel de Sousa
17 abril 2015




Günter Grass partindo da realidade em toda a sua obra artística, não se fixa numa representação absolutamente objectiva e interessada dessa mesma realidade. Grass, antes partindo dessa realidade que lhe poderia proporcionar percursos de escrita de apresentação deveras mais fácil, prefere construir vários e possíveis universos ficcionais através do realismo mágico. De um modo vocacional eclético e realista, pouco vulgar nos artistas plásticos, e intelectuais, Grass abordará a partir do desenho, da escultura, da gravura e da pintura: a literatura, o ensaio, a poesia, a música, a dramaturgia, o cinema e, obviamente, a gastronomia em toda a extensão, de forma contínua, na sua obra.

Nesse processo de construção narrativa romanesca de Grass, nota-se a preocupação central constante de terçar a sua escrita a partir da realidade, pelo campo do subjectivo. Esse modo de escrita subjectiva de entre-linhas será um ponto de fuga necessário, face ao momento histórico vivido, provocado pelo estigma do "sentimento de culpa" instalado no povo alemão, quando O Tambor foi escrito. Esse mundo da escrita subjectiva construído através de um narrador auto diegético (Oskar Matzerath), que assume algumas das responsabilidades de tudo quanto se passou com a Alemanha, constitui ainda hoje um handicap (obstáculo) para a compreensão conteudística de O Tambor na sua plenitude mais imediata. Mas, simultaneamente, é isso mesmo que torna a obra mais aliciante, na tentativa de desvendarmos as conotações épicas a que se referem as suas histórias, todas elas com conexões à dura realidade histórica anteriormente vivida. Então, devemos aceitar em absoluto que não é uma obra muito fácil e à altura do vulgo e, diríamos mesmo, para pessoas que, apesar de possuírem formação académica superior, desistem de o ler, pela sua complexidade e quase ausência de trama (enredo) que, no fundo, constitui o leitmotiv (motivo principal) no trilho de qualquer romance clássico de estilo dostoievskiano, o que de todo não é o caso de O Tambor. Para nós, que nos antecipámos, desde o primeiro minuto de leitura, fundados no gosto da curiosidade subjectiva da magia de descodificar O Tambor, a sua leitura e interpretação foi uma aventura desafiante e constante através dos quarenta e seis contos que constituem a obra. E ainda assim, momentaneamente, tínhamos ficado com dúvidas acerca de quem assassinara a enfermeira Dorotheia e do móbil desse crime, que apenas a leitura continuada da obra nos dará a possível interpretação do desfecho desse crime, engendrado pela conveniência de Oskar. Por este pequeno caso narrativo inserto na obra se pode imaginar a sagacidade e inteligência de Grass enquanto romancista, logo no seu primeiro romance de realismo mágico.

Mas, sem dúvida, registamos e voltamos a reforçar o lugar de relevo em toda a obra O Tambor da existência de um mundo feminino, através do sentido de família tradicional, estruturada, da maternidade, e da lubricidade. Obviamente e também do mundo da alimentação nele inserto, dando-nos pistas do que se comia então, desde a primeira metade do século XX até ao dealbar do início da sua segunda metade (a partir de 1950) em que O Tambor foi escrito, apesar de já terem passado mais de cinquenta anos desde que foi escrito e apresentado em 1959.

 
main
Avaliações
main
comentários
main