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Assistimos ao esvaziamento dos laços de solidariedade e de fraternidade

Data adicionada : February 10, 2015 06:00:04 PM
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10 fevereiro 2015
ASSISTIMOS AO ESVAZIAMENTO DOS LAÇOS DE SOLIDARIEDADE E DE FRATERNIDADE

A Declaração dos direitos do Homem constituiu-se como um marco na história da humanidade, por conter os princípios necessários e suficientes para se organizar a sociedade segundo um critério de igualdade que evitasse a exclusão, a segregação, a organização da sociedade em classes elitistas. Criaram-se expectativas, mas, uma coisa são os princípios, apesar de tudo sempre desejáveis, e outra, muito diferente, a realidade. Para que as coisas aconteçam é preciso que as pessoas queiram que elas aconteçam. Costuma dizer-se que, de boas intenções está o inferno cheio. Continua a haver uma enorme variedade de factores de exclusão social, sendo o mais flagrante, à roda do qual giram, depois, os outros, o modelo de civilização, hoje, geralmente aceite como o mais justo, fundado na meritocracia, ou seja, dito em poucas palavras, aqueles que, pelo trabalho, pelo esforço, pelo saber, pela coragem, pela iniciativa, merecem beneficiar dos privilégios do sucesso, ao passo que os preguiçosos, os ignorantes, os cobardes, os que não têm iniciativa merecem o fracasso e devem ser acomodados na prateleira dos desclassificados, dos excluídos, do lixo social. Isto é, uma sociedade fundada na meritocracia tende a organizar-se em classes que lutam entre si ferozmente para conservarem os direitos a que julgam ter direito. Nunca aceitam perder as vantagens adquiridas, recusam a solidariedade fiscal, defendem as chamadas classes médias. Em consequência, a própria sociedade escolhe as desigualdades sociais, organizando-se segundo regras que, do seu ponto de vista, são justas. Daí, o chavão que os neoliberais conseguiram vender ao povo, atirando cidadãos uns contra os outros: cada um tem o que merece. Consequência: hoje, não há ninguém que não pense que os pobres são uns preguiçosos, uns ignorantes, uns cobardes que não podem viver à custa dos que trabalham. A política da austeridade assenta nessa trave viciada. E viciada, porquê? Porque os pobres, os desempregados, os marginalizados não escolheram ser o bombo da festa. Simplesmente, a sociedade nunca lhes deu oportunidades iguais para triunfarem.

Ora vejamos.

• Quanto ao espaço onde crescem, são empurrados cada vez mais para a periferia das cidades, para bairros degradados, com todas as condições para se transformarem em ghettos segregacionistas;

• Quanto à escola, embora o chamado ensino laico e republicano tenha implementado o ensino universal, com regras que, aparentemente, beneficiam os mais pobres, a realidade diz-nos que só os que têm um local decente de habitabilidade, uma família estabilizada, acesso a bons tempos livres, acesso a apoio escolar extra, cultura familiar razoável, livros e outros recursos, como computador, Internet e outros, assim como uma boa alimentação, para apenas citarmos os factores mais evidentes das regras viciadas do jogo, a realidade diz-nos que a escola gera taxas de absentismo e de insucesso assustadoras;

• A escolha dos estabelecimentos de ensino, como, por exemplo, os colégios particulares, a das carreiras universitárias impossíveis de frequentar pelos mais débeis da sociedade são outros tantos factores de injustiça social;

• Famílias iletradas, muitas vezes, monoparentais, sem recursos económicos ou outros, vivendo no limite da miséria, não são o ambiente propício para evitar a reprodução social: quem nasce pobre tem de morrer pobre;

• O desemprego, os salários baixos e a iliteracia contribuem igualmente para o empobrecimento e consequente marginalização de uma enorme fatia da população mundial.

Ou seja, o espaço onde se criam, a origem social e geográfica, as famílias desestruturadas esmagadas por condições de vida sub-humanas, a iliteracia, o desemprego, os salários baixos criam um estatuto social fomentador de desigualdades sociais escandalosas que não incomodam minimamente os outros cidadãos, para quem é justo que assim seja. Impressionam-me, sobretudo, esses ministros e banqueiros que frequentam a igreja e recebem o corpo de Cristo sem um sobressalto de consciência.

O escândalo é tanto mais gravoso quanto é certo que, hoje, os inquéritos sociais provam que há cada vez mais cidadãos a pensar que a pobreza tem origem numa cultura que é característica das classes pobres, enquanto cada vez menos pensam que a miséria provém de uma economia errada que dá mais atenção ao dinheiro do que às pessoas, isto é, há uma cultura de pobre que conduz ao fracasso e uma cultura da classe média e dos ricos que leva ao sucesso. Daí que esteja na ordem do dia falar do ataque à classe média, mas, haja poucos a pensar na degradação cada vez mais acentuada da vida dos pobres. Confunde-se tudo, misturam-se argumentos, baralham-se as análises para que todos continuem a acreditar que a vida é justa: para uns, os preguiçosos, espera-os a miséria; para outros, a classe média e os ricos, espera-os o prémio da qualidade de vida por via do seu mérito. De tudo o que faz parte da nossa civilização, este é o sinal mais terrível da menoridade da nossa cidadania e da mesquinhez moral de quem se habituou a conviver com os seus irmãos pobres sem corar de vergonha, habituados, como estão, a praticar obras caridosas para descanso das pesadas consciências, quando ainda as não perderam totalmente.

Parece-nos, pois, ser cada vez mais urgente restaurar a solidariedade, a fraternidade, partindo do conceito de que todos somos criaturas de Deus, seres humanos «semelhantes», pelo que, se queremos realmente a igualdade social, se respeitamos os outros, todos têm de pagar para os mais débeis, mesmo que os não conheçam, pois, manda o humanismo, todos somos próximos. A solidariedade tem de eleger-se como um dos pilares mais importantes da coesão social. Ninguém pode ser excluído. Se somos gente, ninguém pode ficar para trás. A coesão social, a confiança nas instituições e a fraternidade dependem muito de nos sentirmos pessoas e não cifrões ou números de estatísticas falaciosas.

 
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