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O MISTÉRIO DA CAVALA

Data adicionada : February 02, 2015 06:00:04 PM
Autor: José Manuel de Sousa
Categoria:
 
José Manuel de Sousa
02 fevereiro 2015




Antropológica e supersticiosamente falando, a cavala enquanto peixe, está associada aos sonhos como prenúncio de morte de alguém (de nós) da nossa família, ou de alguma pessoa nossa amiga. Outras vezes, conotam a cavala com a doença, pelo seu dorso azul riscado castanho-escuro, com brilho de lantejoulas púrpura e verde-dourado, numa conjugação de cores iridescente, que desaparecem após a sua captura, transformando-se em tom de chumbo, associando-a à sífilis.

O aspecto iridescente na mitologia popular de outros povos, está associado, pelo seu qualificativo científico latino no "varius, variellus, ou varelus" que significa «malhado», e que em francês recebe o seu nome de "petite vérole" ou sífilis, ainda hoje um flagelo, onde à falta de protecção perpuciana, se propaga pela população mais descuidada. Então, não é de todo despicienda a associação da cavala à morte. Perversamente e ao contrário, a cavala também está associada à vida, à fertilidade, através da superstição judaica tunisina, quando eles na véspera do Sabbat, ou na noite de núpcias, espalham partículas de pele pelos travesseiros.

Nós algarvios, perante a riqueza que o nosso mar nos prodigalizou, durante décadas, alguns preferiram ignorá-la à mesa. Nesses tempos repudiámos a cavala por nos terem dito ser peixe azul e fazer muito à nossa saúde. De tal não se queixavam os pobres que nunca morreram à fome, antes pelo contrário, e não se sabia qual era um dos seus segredos, quando a troco de quase nada as traziam para casa, escalando-as, salgando-as e colocando ao ar até que secassem, onde depois em cima das brasas as assavam, comendo-as com salsa, alho picado e azeite, espremendo um limão por cima para desenjoarem; acompanhando com pão, vinho, salada de alface e batata cozida para ensopar a pinga. Isto que vos falo, hoje ninguém faz, porque desconhecem e não sabem fazer o petisco ancestral simples e económico que perdem. Claro que, é preciso ter cuidado com o sal. Contudo, nos últimos tempos descobriram que o peixe azul é bom para o coração. Pois seja. Por nós, vamos comendo a cavalinha escalada na brasa, regada com alhinho e azeite. Outras vezes, cozida e enfeitada com umas rodelas de cebola crua, azeite e limão ou vinagre.

Todas estas sugestões gastronómicas ou supersticiosas, onde nem a ictomancia é cordata quando disseca as entranhas da cavala à busca de sinais de vida (saúde), sorte ou azar para as pessoas mais mórbidas que procuram nos bruxos tais sinais de virtudes ignotas: por nós, o melhor e mais confirmado, é de que a cavala é um rico petisco para quem souber aproveitar os seus deliciosos lombinhos.

O resto fica por conta da imaginação.

 
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