Bom dia !     Utilizadores Online:       

DISTRITOS
Algarve
Aveiro
Beja
Bragança
Braga
Castelo Branco
Coimbra
Évora
Guarda
Leiria
Lisboa
Portalegre
Porto
Santarém
Setúbal
Viana do Castelo
Vila Real
Viseu
Açores
Madeira
main
main

O PESO DA CULPA

Data adicionada : January 24, 2015 04:00:02 PM
Autor: José Manuel de Sousa
Categoria:
 
José Manuel de Sousa
24 janeiro 2015






Cada vez mais, menos vozes se erguem no debate que anteriormente acontecia, tornando-se actualmente um caso de extraordinária indiferença, para com a amnésia colectiva acerca do terror instalado, para o que é viver na actual sociedade em crise de valores materiais e espirituais.

Actualmente caminhamos para uma situação irreparável gerando vítimas em que apenas se podem perspectivar algumas nuances que se podem extrapolar com algum rigor da verdadeira natureza do terror que se abateu sobre elas. O mais grave, e que é próprio da condição psíquica e social da vítima, ela não poder vir ser compensada pelo que lhe estão a fazer.

A questão em última análise, não é tanto construir uma etiologia plausível do terror, mas conseguir compreender definitivamente o que significa ser marcado como vítima, excluído e perseguido pela actual sociedade consumista hedonista.

A tendência reflexiva, característica da obra de um sociólogo que pretenda analisar o comportamento do indivíduo em tempos de crise aguda como é o actual caso da nossa sociedade, é por certo determinado pela forma da postura que o cidadão adoptou; é como se os fragmentos da memória tocassem num ponto doloroso. O facto de o cidadão suportar mal a memória, é um problema que determina em alto grau o estado mental das vítimas pelo mal causado nas suas vidas familiar e profissional.

Normalmente a vítima tenta em vão banir do espírito tudo quanto lhe aconteceu, desenvolvendo-se ilhas de amnésia, como se uma capacidade difusa de esquecer andasse a par da efervescência recorrente de imagens que não podem ser banidas da memória e mantêm eficazes como agentes de uma hipermnésia quase patológica num passado esvaziado de conteúdo. Contudo para as vítimas da da actual sociedade, quebra-se o fim rubro cronológico, misturam-se os planos e ficam em suspenso os meios lógicos de apoio à vida íntima da vítima. A experiência do terror vivido pela vítima, também desloca o tempo, esse factor mais abstracto de todos os abrigos do homem. Os únicos pontos fixos são cenas traumáticas recorrentes com dolorosa clareza de memória e da visão, em que o paradoxo da busca de um tempo que, para mal do próprio actor, não se pode, em último recurso esquecer, implicando a procura de uma forma de linguagem em que seja possível exprimir vivências que lhe paralisam a capacidade de falar. A vítima sabe que está a operar nos limites do que a linguagem pode transmitir.

Quem foi torturado pela actual sociedade, passa a ser um torturado. A prática de perseguir e torturar aleatoriamente é executada por alguém, um grupo ou um poder discricionário, de domínio totalitário, dedicando-se à tarefa torcionária de corpo e alma, exercendo o domínio do espírito e da carne sobre o indivíduo mais fraco, que é o cidadão desprovido de defesas imunitárias contra o actual sistema. Há que denunciar a obscenidade deformada da actual sociedade que não pode perseguir, continuando a torturar como se não houvesse problemas. A estrutura do poder ergue-se silenciosa e insuperável diante do cidadão, uma realidade que ele não pode escapar, parecendo-lhe racional. Para o cidadão caído em desgraça, este assume a sua subserviência do poder do carrasco, tirando-lhe o chapéu.

A vida prolongada para além da experiência da desgraça vivida, tem o seu centro efectivo num sentimento de culpa, a culpa do sobrevivente, que é descrita como o pior fardo psicológico nos seus desígnios impostos por um grupo igual que torcionários que os levaram a um castigo máximo de tortura social ignóbil. É de uma ironia particularmente macabra, serem os sobreviventes da actual sociedade que tem sofrido os horrores e os dramas de uma existência de miséria social a superar o peso dessa culpa, e não os que cometeram os crimes.

A pátria de um indivíduo é o lugar da sua infância e juventude. Quem a perde emigrando, perde-se a si, ainda que aprenda a não andar aos tropeções, como um alienado mental.

O actual homem que detém o poder, só existe, destruindo o outro que tem diante de si. A destruição psicológica de uma pessoa é o mal maior que se possa atentar contra qualquer individuo.

A melancolia é sempre a tentativa de uma superação do presente. Mesmo sob a forma do desgosto, ela assume um carácter dinâmico: forçando-se o passado, agindo retroactivamente, protestando contra o irreversível que lhe querem impor.

O vínculo comum que há entre o cidadão e o mundo, cuja sentença de desgraça irrevogável ele reconhece como realidade social, dissolve-se em polémica. Não o querem ouvir? Não querem saber onde a indiferença do poder estatuído vos pode levar de novo, a vós e a qualquer cidadão em qualquer altura? Alguém de novo vos dirá.

 
main
Avaliações
main
comentários
main