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Ser ou não ser "Charlie Hebdo"

Data adicionada : January 13, 2015 04:00:24 PM
Autor: José Manuel de Sousa
Categoria:
 
José Manuel de Sousa
12 janeiro 2015




Um caso comparado de contra-informação



Implica conhecer os desígnios e alcance das motivações que estão por detrás da publicação "Charlie Hebdo". E logo à partida, os primeiros dados que colhemos como matriz e bússola editorial deste jornal, é o de que ele pretendia denegrir a todo o instante a imagem da religião do Islão e do seu fundamentalismo contra o profeta Maomé. Ora, certamente, se fosse ao contrário, i.e., em que uma publicação com fortes meios de irradiação sobre o mundo ocidental a desenvolver a mesma acção anti-católica pela via da ironia e do rebaixamento da imagem de Jesus Cristo, o profeta, não haveria muitas dúvidas que os católicos tentariam a todo o transe destruir essa publicação. É no fundo o que assistimos com este ataque terrorista ao jornal "Charlie Hebdo", financiado por fundos secretos árabes, ao que se diz, à Al-Qaïda, vindos da Arábia saudita.

Imaginemos que os islamitas tivessem a credibilidade redutora sobre o povo do ocidente, e se os católicos fossem minoritários (que até são, visto o Islão ser a religião com maior número de praticantes a nível mundial), é evidente que seriam desencadeadas acções punitivas contra as instalações, procurando matar os principais jornalistas que têm tentado através dos seus desenhos e textos, denegrir a imagem do profeta Maomé, e foi exactamente isso que aconteceu com este ataque ao jornal satírico "Charlie Hebdo", em Paris.

Este tipo de jornal, e do alcance dos seus métodos, é suficientemente conhecido na Europa depois do fim da 2.ª Guerra Mundial. Com o final da Guerra, o Estado Maior do exército norte-americano através dos seus fundos, e com o intuito de desnazificar a população alemã e simultaneamente combater o comunismo, criou entre muitas outras, uma revista para prisioneiros que se encontravam nos seus campos, dirigida por intelectuais alemães pouco conotados com o regime hitleriano e muito menos com a máquina de propaganda alemã nazi de Joseph Goebbels. Dois desses intelectuais, Alfred Andersch e Hans Werner Richter fundaram a revista Der Ruf (O Grito), editada posteriormente fora do campo de prisioneiros de guerra. Esta revista visava uma acção pedagógica de inserção, no intuito de os alemães participarem decisivamente na reconstrução de uma Alemanha democrática, verdadeiramente livre. Mas com o andar da publicação, o exército americano constatando que a linha editorial seguida por Andersch e Richter não estava a contribuir, segundo o ponto de vista dos americanos, para o alcance cabal das suas intenções, que era a desmontagem da ideologia nazi anteriormente inculcada e aceite por todo o povo alemão, o exército estado-unidense desactivou a publicação Der Ruf.

Vejamos que o objectivo principal em causa, era o paradigma da desmontagem do que havia sido a política de informação nazi sobre o povo alemão pejado de mentiras; mas por sua vez o povo alemão também se sentia vítima pelo drama causado pelos bombardeamentos dos Aliados que haviam matado milhões de civis alemães, e destruído a quase totalidade das suas grandes cidades.

Então, em cima da mesa estava por desmontar duas questões muito importantes que chegaram até aos nossos dias, quase insolúveis: uma delas, a acção libertadora da Alemanha para alguns alemães (poucos) levada a cabo pelos Aliados, mas considerada pela maioria alemã como nefasta porque matou milhões de alemães, contribuindo até aos dias de hoje para a negativa da desmontagem do "sentimento de culpa" atribuído aos alemães, do qual eles preferem seguir olhando para o lado, não assumindo essa "culpa", considerando-se vítimas. E a outra questão, é o paradoxo de toda esta tragédia da Segunda Guerra, que ainda hoje segue por ficar resolvida, e assim: nem os americanos conseguiram sair vencedores absolutos perante a perspectiva da maioria dos alemães e, tão pouco e muito menos, os alemães hoje em dia, assumem a totalidade da culpa absoluta pelos milhões de mortos civis e militares, que os exércitos nazis geraram durante a 2.ª Guerra Mundial.

Vamos agora abordar por comparação, a partir da propaganda nazi, e dos serviços da propaganda psicológica norte-americana que acabámos de citar, o recente caso concreto do ataque terrorista ao jornal satírico "Charlie Hebdo", e algumas das suas idiossincrasias.



Nem todos os países, incluindo os USA, subscreveram o slogan "Charlie", e quase que não se fizeram representar na marcha de protesto que mobilizou um milhão e meio de pessoas em Paris. Há que perceber que "Charlie Hebdo" gerava anticorpos fortíssimos na opinião pública, mais contra ele do que a favor, porque esta publicação satírica ultrapassava os limites da sátira que nunca foi do agrado da maioria da população informada, nem de todos os meios de comunicação social. Muitos jornais, agora, recusaram-se inclusive a publicar as caricaturas contra o Islão, no intuito de não insultar gratuitamente dezenas de milhões de muçulmanos. A insensatez de "Charlie Hebdo" contribuiu para que muitos jornalistas estrangeiros também não se solidarizassem com os seus camaradas parisienses. Por outro lado, o medo faz caminho, e permanece em muitos jornalistas a falta de coragem para serem "Charlie" devido ao facto de as suas vidas pessoais estarem ameaçadas de morte e de ataques bombistas em qualquer momento, como já aconteceu agora, depois deste atentado, na Bélgica e no apedrejamento a um outro jornal na Alemanha. "Charlie Hebdo", sempre foi um caso provocatório de intolerância para com ritos interditos e profanos, face ao sagrado que sempre provocou ironicamente contra a religião muçulmana. Parte daqueles jornalistas ora assassinados, eram acusados de serem racistas e homofóbicos que desrespeitavam e atacavam as "regras, o poder e as opressões das instituições".

Neste momento em todo o mundo Ocidental e árabe, os serviços de contra-informação, movimentam-se freneticamente no sentido de procurar defender os seus interesses mais imediatos lavando imagens junto da opinião pública mundial, distribuindo através das suas agências noticiosas toda a sorte de informações que na maioria dos casos jamais reflecte o que aconteceu na realidade, porque a verdade, essa está escondida em cofres-fortes invioláveis do segredo de cada país interveniente. De facto, dá que pensar a polícia francesa ter encontrado próximo das instalações onde foi perpetrado o crime (quase de forma ingénua) o bilhete de identidade do terrorista Said Kouachi que estava super equipado e camuflado, e não se percebendo a razão de ele ir praticar um crime devidamente identificado, cumprindo a legislação de que todo o cidadão dever andar identificado. E quem é que pode acreditar em tanta ingenuidade? Mas simultaneamente, foram-nos mostradas imagens de um hipotético vídeo-amador que do alto de um telhado filmou as cenas últimas do atentado, quando o polícia é assassinado com o tiro de misericórdia disparado por uma espingarda AK47 poderosíssima, que naquela distância tão próxima faria saltar a cabeça do polícia, espalhando sangue por todo o lado. Nem uma gota de sangue se viu escorrer pelo chão. E muito menos se compreende, que nesse preciso momento em que o amador filmava do alto do telhado, já lá por cima andasse um civil vestindo um colete à prova de bala. Do mesmo modo, as cenas da movimentação do carro dos assassinos foram retrabalhadas em estúdio, porque nota-se entrecortes nas sequências. Por outro lado, o Citrôen que os assassinos utilizaram tinha espelhos retrovisores laterais brancos, e o carro que é colocado em cima do camião de reboque, tem os espelhos retrovisores negros. Em que é que ficamos com toda esta encenação fílmica amadorística...? Inclusivamente, vêem-se os dois assassinos de armas na mão a descrever um arco para irem matar o polícia que já estava no solo no outro lado da rua, e quando se dirigem para o Citrôen, o passageiro assassino recolhe do chão, junto à porta entre-aberta do automóvel, um sapato ténis que ele teria deixado descalçar-se. Então nesse caso, quer dizer que ele foi praticar o crime meio-descalço...? É uma narrativa muito mal contada e, de todo pouco verosímil. O que acabei agora de descrever são as imagens que circularam por todas as televisões do mundo. Eu não acabei de inventar nada. E ainda há mais cenas filmadas difíceis de acreditar, conotadas com a reanimação de uma mulher polícia, mas fiquemo-nos por aqui.

Finalizamos com uma notícia pouco difundida, de que o subdirector da Polícia judicial de Limoges (sudoeste de França), de quarenta e quatro anos de idade, responsável pela investigação do ataque ao jornal "Charlie Hebdo", se suicidou com um tiro da sua pistola de serviço, na madrugada de quinta-feira, a seguir ao dia do atentado. De momento não se podem estabelecer vínculos entre a investigação do massacre e a causa deste suicídio do polícia de Limoges.

 
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