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Vitórias morais

Data adicionada : June 25, 2014 04:06:52 PM
Autor: José Manuel de Sousa
Categoria:
 
José Manuel de Sousa
17 junho 2014




Vivemos assolapadamente dependentes do mundo das imagens virtuais. A actual sociedade herdou um património descodificado da fenomenologia da imagem. E, sob a dependência desse mundo nos têm subjugado, dando-nos a papa toda feita, não permitindo que pensemos demasiado, sendo o imediato que nos servem via meios audiovisuais (televisão) o que conta para preencher o imaginário de todo o cidadão.

A televisão é-nos servida em doses maciças ao longo de todo o dia, na procura de público-alvo: as manhãs para a terceira-idade; o meio da tarde para não sabemos bem o quê, e à noite para além das telenovelas de amores falhados, as notícias dos diversos jornais das televisões nacionais, como prato forte do dia. Não escamoteio das virtudes e defeitos que tal dependência possa ocasionar. Temos mesmo de assumir, que os programas de televisão são o último reduto do imaginário dos portugueses a que eles se veem confinados para passar o tempo. Como não fomos capazes de criar arreigadamente hábitos de leitura, e compreendemos porquê, também não podemos exigir, mesmo que explicando muito bem, dos benefícios da leitura.

Toda esta introdução vem a propósito do actual momento desportivo, denominado "Copa do mundo", no qual foram investidos todos meios de capital dos nossos afectos na dependência da nossa Selecção de futebol, no Brasil. O primeiro jogo ditou a fragilidade desta selecção contra a poderosa Alemanha a impor-nos uma goleada. E, aí, os comentadores desportivos inverteram o discurso, passando a dizer que ainda temos mais dois jogos para disputar e que quase tudo está em aberto. O que não é verdade, visto que, mesmo que ganhemos os próximos dois jogos ficaremos dependentes do maior número de golos marcados, em caso de igualdade com uma das outras duas selecções. E nem sequer cito o nome das outras selecções porque para o caso daria igual. O que conta foi que, no jogo inaugural perdemos, e não poderíamos ter perdido, quando muito empatado, e essa até teria sido uma situação muito mais lisonjeira para o desiderato dos portugueses. Mas, mais uma vez nos colocaram no fio da navalha e na contingência do resultado que as outras selecções venham a conseguir. Uma vez mais, e sempre, na dependência dos outros, porque não fomos capazes de sermos autoritariamente melhores durante os noventa minutos que dura um desafio de futebol.

A perversidade desta história acontece num dos momentos mais delicados da história de Portugal, a braços com um dos seus piores períodos. O futebol a anteceder o marasmo da silly season que se aproxima, seria um óptimo lenitivo para a esperança das vidas dos portugueses. Portanto, um desafio de futebol comporta uma carga impulsiva que pode condicionar as nossas atitudes do dia-a-dia, já de si tão fragilizadas por todas as contrariedades socioeconómicas conhecidas.

A silly season é o período que medeia Julho até ao final de Setembro, considerado a "rentrée". É o ano judicial, político e escolar que iniciam as actividades que normatizam um Estado. E a última esperança acabou de morrer às sete da tarde, num campo de futebol, no Estado da Baía de Todos os Santos no Brasil. Portanto, nem com a ajuda dos santos pudemos contar. Fomos goleados e feridos no nosso orgulho nacional, nada pior para um povo, quando ele se sente derrotado. O que aconteceu nesta segunda feira à tarde foi o ruir do sentimento nacional romântico dependente de um jogo de futebol, quase como tivéssemos colocado todas as nossas economias apenas num dos trinta e seis números da roleta de um casino, e mesmo que o tivéssemos feito em todos os números, levaríamos com o zero, que também consta da roleta. Futebol é isto mesmo, capricho e improviso. Nada está ganho à partida, e pior quando se trata de confrontar em pleno terreno de jogo, as vontades de onze jogadores contra a vontade dos outros onze, que, sem ser por acaso já foram várias vezes campeões do mundo. Então, quiseram fazer de nós portugueses o jovem Páris da era moderna que derrota o inimigo com uma seta certeira no calcanhar de Aquiles (os alemães). A santa ignorância, levou-nos a acreditar que tínhamos em Ronaldo o nosso Aquiles da era moderna, como o melhor jogador do mundo para consubstanciar todas as dificuldades no terreno do jogo. Claro que, antes do resultado final todas as apostas estão em aberto. Mas, o que nos fizeram crer ao longo da campanha antes da partida para o Brasil, era a da possibilidade, depois de passada a fase de grupos, que seríamos também capazes, quem sabe, de irmos até à final. Porquê, fazerem de nós mais ingénuos do que parecemos?

Esta derrota vai ter consequências mais graves do que poderemos antever neste momento. Muito do nosso capital afectivo foi colocado no número errado da roleta. Agora, não haverá Persil ou outro detergente capaz de branquear esta nódoa, que foi a nossa participação num campeonato de futebol mundial disputado no Brasil, de onde sairemos vexados e de joelhos, pelo tanto que nos fizeram crer ser possível termos tido uma participação honrosa. É bom notar que, fazemos esta aposta antes de Portugal enfrentar os próximos dois jogos. É um risco que assumimos, sem querermos (mas nem por isso deixamos) ser os profetas da desgraça. O que vimos ontem no final do jogo, foi uma equipa destroçada a arrastar-se no final do jogo, com o moral por terra. E, perante tanta desgraça não acreditamos em receitas milagreiras capazes de levantar o moral necessário para levarmos de vencida, o que perdemos ontem.

Não foram apenas os adeptos que gostam da Selecção de futebol que perderam. Em cima do pano de jogo foi colocado um capital desmesurado de esperanças para as quais não tínhamos armas para combater um mau resultado de um jogo de futebol. Foi apenas isso, e não é nada pouco para afundar-nos ainda mais na nossa crise de todos os dias.

P.S.: Oxalá, tudo o que vier a acontecer nos próximos jogos a disputar pela Selecção no Brasil, seja exactamente o contrário desta hipotética profecia ora apresentada. Oxalá, consigamos ultrapassar todas as dificuldades que nos forem colocadas, e sigamos em frente…,
 
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